Síntese dos Capítulos 1 e 2:
BURKE, Peter. A Revolução Francesa da historiografia: a Escola dos Annales 1929-1989 / Peter Burke; tradução Nilo Odália. – São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1991.
“Capítulo 1 – O antigo regime na historiografia e seus críticos”
Para que a “nova escola” seja mais bem compreendida, precisamos rever alguns conceitos do antigo regime da historiografia. Peter Burke coloca na sua obra que “Desde os tempos de Heródoto e Tucídides, a história tem sido escrita sob uma variada forma de gêneros: crônica monástica, memória política, tratados de antiquários (...)” (1990, p. 11). Muitas vezes a história é escrita focada em apenas acontecimentos de movimentação política, outras vezes, relatando feitos de grandes nomes da história, esquecendo o caráter social, ou melhor: a “história social”. Essa entrou em foco quando intelectuais e escritores da Europa do século XVIII começaram a se preocupar mais com uma história ligada a moral e aos costumes, esses escritores e intelectuais queriam reconstruir comportamentos e valores do passado, como por exemplo, a música, as artes etc.
Leopold Von Ranke, “marginalizou” a história sociocultural, porém seus interesses também estavam voltados para uma história não tão ligada a fatos políticos. Contudo, o movimento que ele liderou, derrubou essa “nova historia” do século XVIII. “Sua ênfase nas fontes dos arquivos fez com que os historiadores que trabalhavam a história sociocultural parecessem meros dilettanti.” (1990, p.12).
Os seguidores de Ranke eram muito mais intolerantes que ele próprio. Esses historiadores estavam vivendo numa época onde se buscava a profissionalização e a história não-política foi deixada de lado na disciplina acadêmica. As revistas publicadas nessa época centralizavam a história política. Nessa mesma época, havia historiadores que iam contra a “metodologia” de Ranke. No livro, o autor cita que Jules Michelet e Jacob Burckhardt escreveram a respeito do Renascimento, salientando que ambos possuíam uma visão mais ampla da história do que os seguidores de Ranke. Burckhardt achava que a história devia ser vista através de três pontos que se interagiam: o Estado, a Religião e a Cultura. Michelet defendia “a história daqueles que sofreram, trabalharam, definharam e morreram sem ter a possibilidade de descrever seus sofrimentos” (1842 apud BURKE, 1990, p.12). Mais ou menos nessa mesma época, Karl Marx também mostrava uma alternativa à história de Ranke, dizendo que a história muda quando ocorre algum conflito na composição socioeconômica, seria “a história econômica”.
Na sociologia (nessa época surgindo como uma nova ciência) anunciava um ponto de vista bastante claro em relação à história política. Auguste Comte, considerado o pai da sociologia, defendia “uma história sem nomes” (1864 apud BURKE, 1990, p.13) Herbert Spencer fazia uma crítica dura às biografias de grandes nomes da história, pois ela não é capaz de esclarecer nada a respeito da sociedade. Émile Durkheim, da mesma forma, desprezava qualquer tipo de evento particular, pois para ele, isso era superficial frente à história de toda uma nação. As críticas à história política, por volta de 1900, estavam bem maiores do que antes, na França, por exemplo, a história tornou-se alvo de um debate mais intenso, onde se tentava definir a natureza da história.
“(...) é inexato pensar que os historiadores profissionais desse período estivessem envolvidos com a narrativa dos acontecimentos políticos.” (BURKE, 1990, p.14) François Simiand, assim como Durkheim, desprezava os eventos particulares, porém ele foi mais a fundo, dizendo que o historiador deveria derrubar “três ídolos” do que ele chamou de “os ídolos das tribos dos historiadores”. Os ídolos a serem derrubados eram:
‘o ídolo político’ que seria ‘uma eterna preocupação com a história política, os fatos políticos, as guerras, etc., que conferem a esses eventos uma exagerada importância; o ‘ídolo individual’, isto é, a ‘ênfase excessiva nos chamados grandes homens, (...), e, finalmente o ‘ídolo cronológico’ ou seja, ‘o hábito de perder-se nos estudos das origens. (1903, apud BURKE, 1990, p.14)
Henri Berr fundou uma revista, a Revue de Synthése Historique, a qual possuía a intenção de alentar aos historiadores a contribuir com outras áreas, como por exemplo, a psicologia e a sociologia, visando produzir a “psicologia histórica”. Burke escreveu que “O ideal de Berr, uma psicologia histórica (...), teve grande ressonância em dois jovens que escreveram para sua revista. Seus nomes: Lucien Febvre e Marc Bloch.” (1990, p.15)
“Capítulo 2 – Lucien Febvre e Marc Bloch”
Movimento dos Annales, na primeira geração teve como seus líderes Lucien Febvre e Marc Bloch, que trabalharam juntos durante vinte anos.
a) Anos iniciais: Febvre era aluno na Escola Normal Superior, onde o ensino era ministrado através de seminários e aulas expositivas. Paul Vidal de la Blache, geógrafo, estava muito interessado em contribuir com sociólogos e historiadores, e para isso, ele fundou uma revista conhecida como Annales de Géographie em 1981. Lucien Febvre escreveu uma tese de doutorado sobre uma determinada região no final do século XVI, a Franche-Comté, enquanto era governada por Felipe II, da Espanha, o nome da tese era Philippe II ET la Franche-Comté, onde Febvre não se preocupava, apenas, com as questões políticas mas também com a “feroz luta entre classes rivais”, o que pode nos dar uma idéia de uma construção marxista, porém é muito diferente de Marx, pois ele descreve a luta de classes “como um conflito econômico de idéias e sentimentos tanto quanto um conflito econômico” (1911, apud BURKE, 1990, p.17)
Marc Bloch, também freqüentou a École Normale. Teve bastante influência do sociólogo Émile Durkheim. Ele se interessava muito por política contemporânea, mas acabou se especializando em história medieval. Assim como Febvre, que tinha um comprometimento com a geografia bastante forte, Bloch possuía um compromisso bastante intenso com a sociologia. Os dois pensavam de um jeito interdisciplinar. “Bloch, por exemplo, insistia na necessidade de o historiador regional combinar as habilidade de um arqueólogo, de um paleógrafo, de um historiador de leis (...)” (BURKE, 1990, p.18). Esses dois historiadores se conheceram quando ambos foram nomeados para ocupar cargos na Universidade de Estrasburgo.
b) Estrasburgo: entre 1920 a 1933, Febvre e Bloch encontravam-se quase que diariamente, foram treze anos de uma importância muito grande para o movimento dos Annales.
“Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, Estrasburgo era efetivamente uma nova universidade, pois a cidade vinha de ser recentemente desanexada da Alemanha, criando um ambiente favorável à inovação intelectual e facilitando o intercâmbio de idéias através das fronteiras disciplinares” (BURKE, 1990, p.19)
Les Rois Thaumaturges* é uma obra de Marc Bloch de suma importância, e Burke destaca três aspectos que tornaram essa obra notável: o primeiro aspecto é que “não se limitava a um período histórico convencional”, o que mais tarde foi denominado de “história da longa duração” por Braudel, na geração seguinte. O segundo aspecto é “uma contribuição ao que Bloch denominava ‘psicologia religiosa’”. O terceiro aspecto é o que Bloch chamou de “história comparativa”, ou seja, “Bloch já utilizava, em 1924, o que iria pregar quatro anos mais tarde num artigo chamado “Por uma história comparativa das sociedades européias” (BURKE, 1990, p.20-21). Nesse artigo ele defende o “uso mais competente e mais geral” da metodologia comparativa, salientando que “os historiadores praticassem ambas as perspectivas” (1928, apud BURKE, 1990, p.21)
Febvre mudou seu interesse para um estudo sobre atitudes coletivas, a chamada “psicologia histórica”, concentrando seu trabalho no Renascimento e na Reforma, sobretudo na França. O artigo dele sobra a Reforma “critica os historiadores religiosos por tratarem o episódio como essencialmente vinculado aos ‘abusos’ institucionais e a intenção de reformá-los (...)’ (BURKE, 1990, p.22) para ele, a explicação para essa reforma, está na ascensão da burguesia.
c) A criação dos Annales: em 15 de janeiro de 1929, o primeiro número da revista idealizada por Febvre, originalmente chamada de Annales d’historie économique et sociale. Nessa revista havia artigos sobre a educação dos mercadores medievais, escrito por Pirenne, artigos sobre o mercantilismo etc. Em 1930, a revista declara sua intenção de se fixar “sobre o terreno mal amanhado da história social” *
d) A institucionalização dos Annales: Após os anos 30, o grupo de Estrasburgo se dispersou, porém a revista continuou a ser editada por Febvre, primeiramente com o nome de ambos (Bloch e Febvre), mas tarde, somente o nome de Febvre estava na revista. Bloch, com 53 anos, se alistou no exército na Segunda Guerra Mundial, e Febvre que estava muito velho para lutar, estudava e escrevia seus artigos. Um aspecto importante, é que Lucien Febvre elaborava seu estudo tendo como dinamizador o problema.
Le probléme de l’incroyance au XVIe siécle : la religión de Rabelais* é uma obra que inicia com uma abordagem filosófica, para “mostrar que o termo ‘ateísta’ não possuía o significado moderno preciso.” Essa obra é um modelo clássico, “É um exemplo notável da história como problema” (BURKE, 1990, p.28-29)